Super Dica de Cinema
  09/10/2020 às 16h31

The Boys in the Band


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The Boys in the Band

Na madrugada do dia 28 de junho de 1969, a polícia resolveu fazer uma batida no bar Stonewall Inn em Nova York, nos EUA. Policiais adentraram o lugar sob a alegação de que a venda de bebida alcoólica era proibida no estabelecimento. Logo, prenderam funcionários e começaram a agredir e a levar sob custódia alguns frequentadores travestis, drag queens, que não estavam usando ao menos três peças de roupa "de acordo" com seu gênero, pois era o que mandava a lei da época.

Essa contextualização é importante pois justamente um ano antes, acontece a história de The Boys in The Band, novo filme da Netflix que conta a história de homens gays tendo que lidar com suas frustrações, desejos, segredos, diante de uma sociedade carregada de preconceitos, agressividade e hipocrisia. E dessa narrativa ficcional que pode parecer para alguns um amontoado de "bichas" usando gírias e pronomes de uma maneira nada "correta", surge um verdadeiro manifesto sobre pluralidade, diversidade e evidencia quanto uma luta como a de Stonewall Inn era necessária pouco tempo depois!

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Michael, Donald, Larry, Hank, Bernard e Emory estão se preparando pra comemorar o aniversário do amigo Harold. Porém, esse grupo de amigos não esperava a chegada de Alan, ex-colega de faculdade Michael que aparenta ter algo para revelar. E nessa noite de comemorações, bebidas e descobertas, a vida desses homens gays irá ser revirada de uma maneira inesperada, com direito a ligações para pessoas do passado e um cowboy!

Joe Mantello dirige a obra que tem a produção do conhecido Ryan Murphy, baseada na peça musical de 1968 de mesmo nome de Mart Crowley. E se o espetáculo já tinha sido transgressor o suficiente para uma época regada por pensamentos conservadores, hoje as coisas não são tão diferentes. O longa é construído de uma maneira dinâmica, natural e cuidadosa ao não apenas trazer o contexto do tempo, mas as expressões, as referências culturais e os discursos que carregavam parte dos costumes sociais norte-americanos.

O diretor escolhe fazer do seu cenário, um apartamento em boa parte do longa, um espaço de disputas, revelações e catártico quando se trata de sentimentos. A câmera, quase sempre na face dos atores, captura cada uma das emoções, não deixando o espectador de fora segundo sequer do que aqueles homens querem dizer ou pensam em fazer. Tudo isso, apoiado em uma paleta de cores ora melancólica, ora sedutora, e de um design de produção que consegue evocar toda atmosfera de libertação que a próxima década iria trazer!

Desta forma, boa parte das sequências, repletas de diálogos, se tornam pontos memoráveis graças as atuações. Jim Parsons (Michael) é irritantemente cativante, numa verdadeira relação de amor e ódio por quem assiste, nos levando a momentos de simplesmente ficarmos fixos ao que ele diz e transmite. Tuc Watkins e Andrew Rennells (Hank e Larry) entregam uma das melhores discussões de casal do cinema, onde os sentimentos mais escondidos se tornam reais, diretos e agressivos. Já Matthew Bomer (Donald), Robin de Jesús (Emory), Michael Benjamin Washington (Bernard), Charilie Carver (Cowboy) e Brian Hutchison (Alan), estão entregues de maneira compentete. E Zachary Quinto (Harold) quando chega, se torna uma energia repleta de sarcasmo, verdade, como se o seu olhar se tornasse o do próprio espectador.

O texto de The Boys in the Band atualiza parte do que foi escrito em 1968, trazendo elementos presentes em discursos atuais, dentro e fora da comunidade gay. Para você, leitor que não faz parte desse universo, que não convive com pessoas LGBTQIA+ ou sequer se colocou para entender pelo o que passam essas pessoas, essa produção é apenas uma parte de muitas vivencias, de pessoas que saíram ou que ainda se encontram presas nos "armários do preconceito"!

O fato é que em plena década de 60, chegando aos anos 70, permeando um caminho onde a liberdade iria se manifestar de alguma forma, através de muita luta, tudo isso precisava ser mostrado com todos os maniqueísmos, gírias, trejeitos, afetações e "viadagem" necessária! E se analisarmos ainda mais o pós levante de Stonewall, temos uma década onde encontramos a chamada "Peste Gay", como era chamado o HIV, ou as caricaturas presentes nos cinemas, séries, espetáculos, até boa parte dos anos 2000.

Pois quando aquele aniversário começa, parte da vida de muitas pessoas passa a ganhar uma forma em tela inesperada, uma forma mais próxima da realidade. Existe aquele que vive em conflito consigo, o que não consegue amar, o casal que apesar de tudo permanece junto, o que lida com qualquer coisa através do sarcasmo, o que nada entende, o que manifesta os preconceitos da própria comunidade gay, o que é alvo desses preconceitos. Cada um presente naquele apartamento não está apenas retratando homens gays daquela época, mas figuras que hoje são nossos vizinhos, amigos, filhos e pais.

Assim, ao longo dos seus mais de 120 minutos, não há como ficar apático ao que acontece e as figuras presentes. Mesmo que você seja orientado sexualmente de forma oposta, algo certamente te fará pensar, questionar e racionalizar sobre o quanto é necessário que histórias assim continuem a serem contadas e a figura do homem gay, assim como de toda comunidade LGBTQIA+, seja retratada da maneira adequada! Atores gays, interpretando personagens gays, isso é o certo! Pois tais pessoas sabem, entendem e já sentiram cada um dos sentimentos presentes naquela festa de aniversário!

The Boys in The Band é uma espalhafatosa, catártica e emocionante história sobre pessoas que estão próximas de nós! Que vivem seus amores, suas dores, suas perdas e conquistas, de uma maneira muitas vezes escondida, pois a nossa sociedade ainda está apegada demais às normas, aos costumes e regras. Mas ainda bem que um levante aconteceu lá em 1969!

Com uma direção pautada nas atuações, evidenciando o talento do seu elenco e dando voz a atores abertamente gays, a produção ganha força ao trazer a cultura queer representada por quem realmente faz parte dela, fazendo com as sequências onde as emoções se tornam palpáveis, ainda mais intensas.

Talvez para alguns seja apenas um filme sobre "bichas", para outros um festival de atuações "afetadas" e haverá aqueles que não irão entender porque aqueles "problemas" são tão graves assim, pois isso é a demonstração de algo que StoneWall tanto lutou e que ainda carregamos em nossa bandeira, a manifestação da empatia e da falta dela. E tal manifestação, apesar de toda turbulência interna e externa, se faz presente naquele apartamento, de um jeito ou de outro, a amizade, o carinho e o amor sempre transcendem!

The Boys in The Band está disponível na Netflix!

Will Weber
Geek Guia

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