Super Dica de Cinema
  26/04/2022 às 10h00

Medida Provisória


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Medida Provisória

Trabalhar com distopias é trabalhar com um futuro complemente no caos e totalmente improvável. Contudo, algumas histórias se tornam tão próximas da nossa realidade, que o sentimento de algo daquela vir acontecer acaba se transformando quase em um medo eminente quando assistimos algum filme. E em ‘Medida Provisória’ esse é o ponto crucial.

Antes de efetivamente começar a crítica, é preciso pontuar algumas coisas importantes: Quem escreve esse texto no momento é um homem branco, diretamente do seu lugar de privilégio e completamente fora do seu local de fala. Por isso, nessa crítica pretendo me ater aos aspectos técnicos do longa e focar na experiência, e sentimentos, causados durante a sessão.

Adaptação da peça teatral “Namíbia, Não!”, de Aldri Anunciação, o longa conta a história de um futuro não tão distante no Brasil em que os governantes voltam atrás na decisão de ressarcir financeiramente os diretamente afetados pela escravidão no país e com os recursos, dão a “oportunidade” de que pessoas, agora não mais negras, mas de melanina acentuada, possam voltar ao continente africano como forma de reparação histórica.

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Com gravações ainda em 2019, Medida Provisória teve sua estreia adiada devido a pandemia da Covid-19 e marca a estreia de Lázaro Ramos como diretor de cinema.

Quando o programa batizado de “Resgate-se” é apresentado, as pessoas de "melanina acentuada" podem decidir voluntariamente se querem uma passagem só de ida para um país a sua escolha no continente africano, porém muitos brasileiros não levaram a sério, seguindo sua vida normalmente.

O longa é focado em 3 personagens principais: o advogado Antônio, interpretado por Alfred Enoch (ator conhecido pela série How to Get Away With Murder e a franquia Harry), a médica Capitu, interpretada por Taís Araújo, e o jornalista André, interpretado por Seu Jorge.

Pouco tempo depois do início do Resgate-se, o Congresso Nacional faz uma votação (em referência a votação do impeachment de 2016) e o que antes era opcional agora passa a ser obrigatório: todos as pessoas de melanina acentuada devem deixar o país, voluntariamente ou a força.

A partir daí, acompanhamos as personagens na resistência contra a medida provisória. Os primos Antônio e André acham a segurança em seu próprio apartamento, já que, por lei, as autoridades não poderiam invadir o local, já Capitu encontra abrigo nos chamados Afrobunkers, um paralelo moderno dos quilombos no período de escravidão, oferecendo abrigo aos fugitivos de melanina acentuada.

A direção de Lázaro Ramos se assemelha ao cinema hollywoodiano, mas não tem nenhuma intenção de ser “gringo”. Os aspectos e detalhes do filme gritam brasilidade a cada cena, desde o boteco copo sujo com a jukebox até a casa simples (apesar das profissões bem remuneradas).

O enredo se desenvolve de forma preguiçosa, sem muitos conflitos além da dificuldade em resistir. Mesmo assim, quando o filme termina, a sensação que se tem é que você assistiu intensidade na tela durante as 1h34m de filme. Mais do que impedir a retirada dos negros do Brasil, a intenção da resistência presente no filme é expulsar esse pensamento que tornou aceitável chegar a esse ponto.

Não poderia também deixar de falar sobre os efeitos visuais, se é que podem ser chamados assim. Por se passar numa realidade quase atual, o filme não se propõe em ter muitas adições nesse quesito, mas nas primeiras cenas do filme, o ator Alfred Enoch não pode gravar presencialmente e foi utilizado o recurso de chroma key, porém porcamente cortado, desde o início da cena fica explícito que o ator não está ali (por um momento cheguei até a me preocupar se seria assim durante todo o filme). Mas esse não é o único problema de Alfred.

Apesar de ser britânico, o ator tem mãe brasileira e por isso também fala português, porém, só falar o idioma não traz a capacidade de emitir com precisão a intensidade necessária de algumas falas e isso fica ainda mais explícito quando o Enoch contracena com Seu Jorge. Entretanto, essas questões não tornam o filme menos necessário.

Logo, em meio a todo o caos, toda a violência, haviam momentos em que a narrativa trazia o amor, a amizade, o companheirismo, coisas que nos fazem lutar e continuar mais um dia, também entravam em cena e assim o choro de desespero era substituído por emoção, uma sensação de "coração quentinho" e a esperança de que tudo vai dar certo, nos acolhe em um aconchegante abraço imaginário que tranquiliza. Enfim, sentimentos e sensações estão presentes em cada momento.

'Medida Provisória' é uma estreia assertiva, competente e repleta de discurso necessários na carreira de Lázaro Ramos como diretor!

Desta forma, é possível acreditar que todos que assistirem, pretos ou não, sairão com a mente um pouco mais aberta e dispostos a se desconstruir, se desvincular de preconceitos enraizados na sociedade, já que Medida Provisória faz refletir sobre vários assuntos e questões do cotidiano. Uma arte que cumpre com o que propõe.

Medida Provisória está em cartaz nos cinemas

Will Weber
Geek Guia

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