Super Dica de Cinema
  25/10/2021 às 15h32

Duna


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Duna

Existem obras dentro da cultura pop que possuem uma legião de fãs muito fiéis que colocam aquilo que leem, ouvem ou assistem num patamar quase divino. E normalmente, quando uma adaptação desse material surge, não apenas os questionamentos sobre a qualidade dessa obra aparecem, mas os comentários dizendo que tal produção não é para "qualquer um" ou a linguagem "não é popular e só poucos irão entender"! Deste modo, atrelado ao discurso de onde se deve ou não assistir o resultado, eis que novamente o universo criado por Frank Herbert chega aos cinemas!

'Duna', dirigido por Denis Villeneuve, finalmente estreia nas telas para contar uma história repleta de singularidades em seus elementos, tramas políticas e um tom messiânico em seu protagonista. Além de um visual impecável preparado para as grandes premiações. Ao mesmo tempo, a obra grandiosa não foge de ser algo realizado diretamente para um grupo específico de espectadores, e por mais que se diga ao contrário, quem não leu não achará o impacto que tanto foi mencionado. E nessa onda de regrar como se deve acompanhar uma obra, sobram contemplações em meio ao deserto e falta carisma ao personagem principal!

Leto Atraides é o líder de uma das casas mais importantes do Imperium e precisa assumir o controle do planeta desértico Arrakis, responsável por conter a substância mais poderosa do universo, "a especiaria". Logo, acompanhado de seus servos, de sua concubina Lady Jessica e de seu filho, Paul, eles irão perceber que esta não será uma tarefa simples. Já que sua ida ao local despertará a ira dos Harkonnen, antigos administradores do planeta. Como se não bastasse, Arrakis é o lar dos Fremen, povo que lá habita e possui seus próprios costumes. Assim, quando Paul passa a entender certa conexão com o local e com pessoas que lá vivem, o seu destino começa a se revelar e as perdas nesse caminho o levarão até o deserto!

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Denis Villeneuve é um dos nomes mais talentosos do cinema nos últimos anos. Entregou o incrível "A Chegada", o criativo "Blade Runner 2049" e o ótimo "Os Suspeitos". E sua mais nova criação não poderia vir de outro lugar senão das páginas de um dos livros de ficção científica mais aclamados da história!

Villeneuve adapta pouco mais da metade do material original, justamente para dar a esta obra uma atmosfera de saga que precisa ser assistida pois fará uma nova legião de fãs. De fato, esse movimento já começa a acontecer, pois o trabalho de direção é impecável em todos os aspectos! Desde a construção dos ambientes, aos efeitos visuais empregados, figurino e fotografia, tudo transmite uma grandiosidade palpável e crível. O planeta desértico onde passamos boa parte do segundo e o terceiro ato é entregue ao espectador em toda sua exuberância e megalomania. Ao mesmo tempo, o diretor vai nos apresentando o contexto desta história, as nuances que cercam povos, castas, casas e crenças!

Há toda uma preocupação em tornar o roteiro atrativo para quem assiste e são nos elementos técnicos que encontramos sua maior força!

Quando observamos as naves, as figuras que transitam por entre os lugares, além dos vermes do deserto, chegamos à conclusão de que tudo foi realizado para impactar quem está na sala de cinema. Logo, quando a ação tem início, Villeneuve consegue exercer tais cenas com criatividade e senso de perigo. As lutas são coreografas de um jeito único e repleto de detalhes. E todo ataque a Arrakis quando os Atraides já estão lá, vai desenrolando camadas que aumentam a tensão dos acontecimentos em questão! Tudo isso está envolto a belíssima trilha sonora de Hans Zimmer que num ato de misturar elementos, confunde, atrai e causa estranheza a cada nova nota, tornando-se uma sinfonia única que revela em parte o que nos está sendo mostrado!

Contudo, a película pode ser um grande exercício de paciência para quem esperava encontrar um cenário de ação e conflitos em todo tempo. Por mais de 40 minutos o diretor se propõe a explicar o universo, em diversos momentos interrompido por cortes de um sonho do protagonista. Tais sequências são um deleite para quem já sabe o que está por vir, mas um enfadonho momento para quem não esperava uma aula de geografia e história interplanetária. Ao mesmo tempo, há um anticlímax enorme quando chegamos ao desfecho! Sim, sabemos que houve uma divisão do livro e isso deveria acontecer, porém a forma como o encerramento se apresenta é como se faltasse ao menos 10 minutos para um final decente, quiçá interessante! Nos fazendo então esperar que a Warner confirme a segunda parte o mais rápido possível!

Como já falado, existem obras dentro da cultura pop que possuem fãs que irão defender a todo custo sua existência. E nesse ato, afastam completamente novos apreciadores de algo que poderia alcançar tantos outros. O fato é que 'Duna' tenta popularizar um texto denso, repleto de uma trama política complexa e de elementos que não se estabelecem de maneira facilitada. Ainda assim, está longe de ser uma saga que irá arrebatar todos os públicos!

A história do jovem tirado do seu local de origem, destinado a algo maior, descobrindo dons e talentos, passando por momentos desafiadores, já foi contada diversas vezes no cinema. E em sua maioria, o protagonista ao menos possuía um traço de carisma, algo que o superestimado Timothée Chalamet precisa encontrar em sua carreira. É interessante que sua criação passa pelos âmbitos militares e religiosos, contudo, quando se espera ver algo mais, o momento "videoclipe no deserto de comercial de perfume" estrelado pela Zendaya surge, para nos mostrar que até mesmo na ficção científica podemos trabalhar com o subjetivo. Ótimo conceito, empregado de maneira excessiva!

E pode ser que neste instante, você esteja repetindo as famosas falas que não é uma obra para "qualquer um" ou a linguagem "não é tão popular e só poucos irão entender", mas este ato antidemocrático dentro da cultura pop é tão irritante, quanto improfícuo.

Ademais, as informações sobre as casas, o Imperium, e as figuras que permeiam esse universo são pinceladas de forma a mexer com a nossa curiosidade. Entretanto, tudo fica limitado a poucas falas, ações e personagens que não possuem o tempo devido de tela! Deste modo, 'Duna' é aquela promessa de uma noite tórrida de amor frenético que se torna apenas um beijo na testa de "boa noite" e uma virada para o lado na cama, pois o sono é maior que qualquer coisa!

'Duna' é impecável em seus aspectos técnicos, entregando um visual esplêndido e admirável, realizado com dedicação em todos os detalhes. Tanto design de produção quanto trilha sonora se tornam os impulsionadores de uma obra que será reverenciada por muitos diante da construção de um universo palpável. Ao mesmo tempo, a adaptação peca em seu ritmo desconexo, na falta de certas informações, em personagens mal aproveitados e nos toques subjetivos para tratar de algo que certamente causará estranheza por parte dos espectadores. Execução perfeita, conceitos em excesso!
Logo, a produção de Denis Villeneuve não é o novo "O Senhor dos Anéis", pois um ponto importante foi completamente deixado de lado: O objetivo do seu protagonista. Nas obras de J. R. R. Tolkien e nos filmes de Peter Jackson sabíamos que o "Um Anel" deveria ser destruído, já aqui, Villeneuve joga seu Paul no deserto e parece que o foco era somente contemplá-lo, e se sobrar tempo enfrentar alguns perigos.

Ou seja, se você sai do cinema esquecendo um ponto tão simples é sinal de que muito mais do que foi visto poderá ser esquecido! E nem só de visual vive a sétima arte!

Duna está em cartaz nos cinemas! 

Will Weber
Geek Guia

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