Super Dica de Cinema
  30/08/2021 às 9h42

A Lenda de Candyman


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A Lenda de Candyman

Existe uma parcela da sociedade que critica movimentos sociais por atitudes que por eles são classificadas como extremistas! Dizem eles que a forma combativa e agressiva desses discursos invalida demais as lutas das minorias, as quais não se incluem, e que deveriam estar mais "abertos" a um diálogo, do que necessariamente gerar manifestações ou gritar palavras de ordem. Ao mesmo tempo, quando figuras se colocam a frente de tais grupos são alvos de diversos ataques que deturpam e mudam a visão sobre essas personas, as tornando exemplos do que não é "certo" perante a sociedade! Assim, tendem a diminuir, para enfim excluir, de maneira brutal tal existência. Neste caso, a brutalidade é vista como um recurso para se manter a ordem!

Logo, 'A Lenda de Candyman' chega aos cinemas apresentando todos os elementos citados acima estruturados por um roteiro que ao utilizar do terror, conectando esta produção diretamente com a original de 1992, consegue estabelecer uma crítica social que dá voz, forma e imagem para algo que muitos certamente não irão compreender ou estarão mais preocupados procurando o terror em si durante o longa. Contudo, este é um filme em que o simbolismo, a atmosfera de amedrontadora, estão pautados em uma figura que não é apenas o vilão da história. E sim, a história de muitos em si!

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Anthony é um jovem pintor em busca de inspiração para suas próximas obras. E após visitar o bairro Cabrini Green, em Chicago, passa a ficar fascinado pela história por trás de Candyman. Logo, quando eventos sobrenaturais e estranhos assassinatos passam a ocorrer, o rapaz procura repostas pois de acordo com a lenda, depois que se diz cinco vezes seu nome, Cadyman surge para matar. Assim, tudo o leva crer que o que esteja ocorrendo seja devido ter chamado a figura sombria e quanto mais Anthony desvendo os mistérios, maior proximidade passa ter da lenda!

Nia DaCosta comanda a produção que possui roteiro e produção de Jordan Peele (Corra e Nós), baseada no conto de Clive Barker e no filme "O Mistério de Candyman" de 1992. E esta é uma continuação direta do filme da década de noventa (Ignorando as continuações horríveis), ampliando também a mitologia por trás da lenda do homem com um gancho no lugar da mão que surge para matar aquele que disser seu nome cinco vezes em frente ao espelho!

O trabalho da diretora é exímio em diferentes aspectos. Ela controla a câmera de maneira quase surrealista em alguns pontos, consegue mesclar as passagens entre o sobrenatural e o real, dando a mesma intensidade nos momentos, além de apresentar uma inventividade absurda quando o assunto é a violência gráfica.

A direção usa dos elementos em torno da lenda existente para construir uma atmosfera densa ao passo que as vítimas de Candyman vão sendo encontradas por ele! Logo, tanto fotografia quanto designer de produção abraçam ainda mais os elementos artísticos, brincando com reflexo, luminosidade baixa em locais abandonados, claridade extrema em lugares mais amplos, e o contraste gritante entre os diferentes locais que personagens transitam, sem contar o teatro de sombras que contribui para a estética primorosa da obra.

Deste modo, não temos sustos fáceis ou qualquer coisa para nos fazer ficar pulando constantemente da poltrona. Nia DaCosta realiza uma verdadeira imersão à lenda, aos fatos e tudo o que percorre passado, presente e futuro. E quando pessoas começam a morrer após encontrarem com Candyman, a diretora nos presenteia com sequências que certamente entrarão para as listas de cenas clássicas do cinema de terror. Seja numa galeria onde vemos apenas a silhueta do assassino, num prédio filmado de longe onde vislumbramos alguém sendo erguida e arremessada contra a janela, ou na transformação de uma figura que faz uso do Body Horror de um modo grotesco e chocante!

Novamente, não é um filme de sustos fáceis, mas é uma história que amedronta conforme vamos percebendo que as ações cometidas resultam de algo muito maior, real, e que apenas ganhou uma forma marginalizada pois assim as pessoas o fizeram!

Ao longo da história da sociedade diversas figuras foram classificadas como más! Religiões foram consideradas amaldiçoadas e manifestações culturais relegadas por aqueles que se colocam no grau superioridade. Com isso, muitos foram deixados à margem dos acontecimentos, colocados em locais estratégicos para controle e futuramente, gentrificação. Estabelecendo os apagamentos de suas ações, legados e feitos no decorrer dos anos! E sobre tudo isso, existe Candyman!

O roteiro de Jordan Peele abraça a crítica social para dar ao nome repetido 5 vezes não o medo de ações, mas o sentimento de temor que o mesmo carrega em se tornar a figura sobrenatural. Ao passo que vamos entendendo o que levou Candyman a ser Candyman de fato, encontramos muito mais do que apenas uma lenda urbana. Há todo um contexto social que coloca minorias em condição de subserviência, maus tratos e violência! E nosso olhar se funde com o dos personagens, ora somos a curiosidade mórbida de Anthony, ora somos o medo de Brianna.

Logo, o resultado de tais ações é o mesmo! Violência combatida com agressividade que quando vista pela classe dominante, branca e heteronormativa, passa a taxar tais figuras que foram alvo primário, como causadores de tudo isso, e assim, as lendas se criam, as personas surgem. Seja a figura do negro ou da negra agressivos, seja a figura do gay escandaloso, ou da trans puta. Quem está no topo deturpa nossa história! Tal e qual vemos com doces que eram distribuídos na trama, mas que não eram feitos por quem foi alvo da polícia! O texto então nos mostra que Candyman surge para dá vida ao contexto que nos é estabelecido por outros, porém ao assumir à alcunha de um "cruel assassino", a narrativa firma o mesmo como uma lenda que precisa ser contada, precisa ser mantida, como ferramenta da verdadeira justiça social. Daquela que é feita para dar aos protagonistas algo em que acreditar quando são colocadas algemas!

E para alguns, o nome continuará causando medo, para outros, será a representação de muitos que foram deixados para morte por ser quem são, mas que não podem ser esquecidos! Por isso, evocá-lo não é atrair um vilão, é deixar viva uma narrativa coletiva!

'A Lenda de Candyman' é sem dúvidas, até o momento, o melhor terror do ano! Com uma inventividade e beleza estética atreladas a um roteiro que mescla entre o terror social e sobrenatural, eis uma história que mostra as figuras que foram deixadas à margem para morrer, justamente para contar outras histórias em seu lugar. Mas aqui, Candyman assume seu legado, se faz uma lenda, e desfaz os mitos, comprovando que todo processo de apagamento de minorias ao longo da humanidade é tão cruel, brutal e assustador, quanto um homem que tem um gancho no local da mão!

Nia DaCosta entrega não apenas um suspense primoroso, mas uma atmosfera cativante e sequências grotescas de horror. A diretora estabelece seu nome com uma criatividade ímpar, estabelecendo uma narrativa que dialoga com várias vozes, dando ao gênero de terror a revitalização adequada a uma figura que certamente adentra o patamar dos clássicos modernos!

Ao final, Candyman não é o vilão da história, ele é a história que precisa ser contada! E assim como na realidade, personas também são alvos de dúvidas, apagamentos e tem suas narrativas contadas de diferentes formas. Em sua maioria, para se criar um antagonista do que é considerado "bom", mas de igual forma a produção, há um modo de evocar solução. Ainda que seja de maneira combativa, brutal e agressiva. E se reclamarem lembremos que foram eles que jogaram primeiro as pedras, arrastaram corpos e falaram os nomes. O que vem depois não é vilania, é justiça!

'A Lenda de Candyman' está em cartaz nos cinemas!

Will Weber
Geek Guia

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