Super Dica de Cinema
  11/01/2021 às 10h39

A Assistente


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A Assistente

Jane está diante de uma pessoa do Recursos Humanos da empresa em que trabalha. Ela tenta contar sobre os estranhos comportamentos do chefe e principalmente na forma como trata uma nova colega. Há um nervosismo em Jane que não finaliza com as falas da outra pessoa, muito menos ela vê alguma solução para o que está passando. Ao final, a única coisa que ouve e de uma forma bem estranha é que não precisava "se preocupar", pois não fazia "o tipo" do chefe!

'A Assistente', filme que chegou ao catálogo da Amazon Prime Video, apresenta uma história sobre os abusos sofridos por mulheres dentro da indústria do cinema, porém de uma maneira quase que sensorial, a produção mostra que as situações de assédio ocorrem de diferentes maneiras, seja através de uma ligação, de algo dito indiretamente e até mesmo de um e-mail. E às vezes, a figura causadora de tudo isso é quase onipresente!

Jane é uma jovem que trabalha em uma produtora de filmes para um dos grandes nomes da indústria cinematográfica. Ela é uma assistente e ocupa o cargo há pouco mais de 5 meses. Contudo, as constantes situações abusivas a fazem pensar sobre se realmente quer estar naquele lugar. Assim, em um dia estressante de trabalho, a jovem será levada ao extremo diversas vezes até que tome a decisão sobre tudo o que está acontecendo.

Kitty Green dirige e escreve a produção pautada em uma pesquisa com diversas pessoas que vivenciaram abusos e assédios dentro da indústria do cinema, isso faz com que o texto ganhe inúmeras formas diante de quem assiste. A diretora utiliza uma câmera estática, quase documental para dar ao seu filme um tom melancólico, cru e ao mesmo tempo carregado de uma atmosfera densa, opressiva em diferentes pontos.

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Sempre focando nas expressões de sua protagonista, a obra não procura criar nada inventivo e muito menos exagerar nos momentos onde as situações de assédio ocorrem. E isso é um acerto! O fato de não mostrar certos acontecimentos nos faz perceber, nas entrelinhas das conversas e até mesmo nos objetos de cena, o que aconteceu, como e quem foi o responsável!

Ao trabalhar a realidade de uma maneira quase subjetiva, a direção entrega um filme profundo, construindo bem para o espectador um cenário violento, mascarado pela polidez e conivência.

Tudo isso se eleva graças a atuação de Julia Garner! Ao dar vida a Jane, encontramos camadas diferentes de sua personalidade. Com seu olhar que se mantém muita vezes baixo e suas expressões tímidas que se sobressaem, há na protagonista o reflexo de muitas e muitos que já vivenciaram abusos dentro do ambiente de trabalho. E logo, Garner ganha a tela e o espectador demonstrando o desconforto e a desestabilização de sua personagem, novamente tentando encontrar, através de sua fisionomia, um ponto de esperança. Uma atuação digna das grandes premiações do cinema!

A frase acima é só um exemplo do que ouvimos Jane receber ao longo do filme! O que já demonstra que o texto da produção explora de uma maneira enfática o assédio moral, e até mesmo sexual, de grandes produtores da sétima arte. E como dito nas artes promocionais do longa, esta é uma produção que apresenta a história que deu início ao Movimento "Me Too", responsável em 2017 por trazer à tona diversos casos de abusos sofridos por mulheres dentro do cinema, principalmente por parte do produtor Harvey Weinstein.

Contudo, a trama não dá face ao chefe abusador! Nós não o vemos, mas sua presença, seu comportamento e ações repercutem em todos dentro da empresa. Desde suas saídas estranhas em determinado momento do dia, a falta em reuniões e as ligações pessoais que precisam também ser resolvidas por Jane, percebemos que a construção narrativa torna todo aquele espaço cada vez mais claustrofóbicos graças as ações maldosas. Que muitas vezes são ignoradas pelos colegas da jovem, apenas desviando o assunto ou abaixando a cabeça!

E quando Jane percebe que as atitudes de seu patrão estão indo além dos xingamentos e e-mails agressivos, sua atitude de tentar alertar ou denunciar soa como uma demonstração de inveja acerca de outra colega de trabalho "mais jovem e mais bonita", o que faz a assistente retornar para a sua mesa e preparar outra mensagem de desculpas a ser enviada para o chefe! E este é o único momento em que seus colegas se aproximam para ajudar!

A Assistente é um registro competente, desconcertante e ao mesmo tempo difícil de acompanhar, tornando então a narrativa tão próxima da realidade, quanto os casos que acontecem dentro da indústria do cinema. Assim, a produção mescla elementos para criar uma atmosfera onde o abuso se torna uma presença tão sufocante quanto a própria figura em si do abusador.

Com uma direção assertiva, capaz de criar situações que deixarão o espectador incomodado, o longa alcança um patamar elevado graças a atuação de Julia Garner que entrega emoções e camadas de formas diferentes, nos deixando pensativos com as escolhas e o destino de sua personagem.

Logo, todo o nervosismo de Jane e receios em relação ao chefe tentam ser amenizados com um breve elogio que ouve ao telefone, mas aquele apenas foi um dia do seu trabalho, um dia longo, sufocante, estressante e opressivo. E quantos mais dias faltam para tantos outros e outras que ainda vivenciam situações semelhantes? Fiquemos com esse pensamento!

A Assistente está disponível na Amazon Prime Video.

Will Weber
Geek Guia

 

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