Super Dica de Cinema
  18/11/2021 às 12h55

7 Prisioneiros


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 7 Prisioneiros

Há poucos dias, uma mulher foi as redes sociais reclamar da noite incômoda onde teve que dormir com seu filho, pois a criança sempre esteve com a babá a noite, e aquilo para ela foi um grande desafio. E qual o problema disso? Simples, o que para a mãe é uma tarefa complexa, para outros, é mais um dia de trabalho exaustivo.

E se formos vasculhar não apenas as redes sociais, iremos encontrar relatos de trabalhadoras e trabalhadores que são colocados em situações de exploração constante em seus ambientes de trabalho, em sua maioria braçal, doméstico e que requer esforço físico. Justamente para que uma classe "dominante" se sinta confortável em seus passeios pelas orlas de praias, shoppings, pensando que o mísero salário-mínimo é o suficiente para pagar estes e outros serviços da mesma natureza.

Dito isso, '7 Prisioneiros' chegou na Netflix nos mostrando que a escravidão no Brasil apenas mudou de nome e de lugar. E através de uma narrativa direta, dinâmica e intensa diversas vezes, temos a entrega de Rodrigo Santoro e Christian Malheiros em papeis antagonistas, mas que se completam em uma história que nos aproxima de uma realidade que pode estar acontecendo em diferentes localidades e até próximo a nós. Logo, a obra se torna uma grande expressão de um Brasil que cresce às custas de quem nada tem, para que aquele que pensa ter algo, continuem seu regime de exploração. E neste ciclo, tramas assim precisam ser contadas, pois nem todos estão cientes desta realidade. Contrariando o que pensam muitos, incluindo críticos de cinema!

Mateus recebe uma proposta de trabalho para São Paulo! A promessa de poder ajudar sua família que vive no interior está em suas mãos, porém ao chegar ao local, começa a perceber, junto de seus colegas, que o que havia sido dito, não é verdade! Assim, o jovem e os colegas de trabalho se veem em situação análoga a escravidão, onde têm seus documentos confiscados, precisam trabalhar constantemente para pagar uma "dívida" que nunca viram. Mas existe uma chance de escaparem desse lugar, porém para Mateus e os demais, poderá ser uma chance de vida ou morte!

Alexandre Moratto é quem comanda a produção, apresentando um drama que trabalha os dilemas de seus personagens, ao mesmo tempo que constrói uma figura antagônica desprezível. Nisso, a direção vai nos entregando elementos que servirão para as camadas de seus protagonistas, ao passo que a proximidade com a vilania se torna ainda mais tênue.

Para isso, o diretor escolhe planos que nos mostrem o as condições em que se encontram os personagens desde o começo. Da simplicidade dos diálogos, ditos de forma natural logo de início, à complexidade e o suspense que as futuras interações, as sequências são guiadas com maestria, nos deixando mais próximos do que ocorre, justamente por apresentar traços de acontecimentos que certamente ouvimos em noticiários.

Ao realizar esse trabalho referencial, Moratto consegue estabelecer uma atmosfera de perigo constante, onde as personas que colocaram os jovens em condições de trabalho escravo, estejam constantemente ao redor, observando e minando qualquer tentativa de fuga ou pedido de ajuda. Seja mostrando que as pessoas dos prédios em volta pouco se importam com o que acontece naquele ferro velho, ou quando os policiais surgem para deixar claro que qualquer ação poderá trazer consequências para as famílias dos rapazes que estão longe dali. E assim, o medo ganha ainda mais forma no decorrer da trama!

Contudo, a obra acaba sendo insuficiente em certas contextualizações e até mesmo ao se encaixar nos dias atuais. Falhando um pouco em convencer quando alguns elementos temporais parecem ser descartáveis demais, como telefones celulares.

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Apesar disto, a obra ainda é competente em seu texto e atuações. Rodrigo Santoro entrega um papel sólido, repleto de camadas e totalmente detestável. À medida que vemos o seu desenvolvimento, mais de sua personalidade e semelhanças com Mateus surgem na trama, deixando a história ainda mais intensa. Por sua vez, Christian Malheiros captura nossa atenção do começo ao fim, fazendo do seu protagonista uma presença representativa e cheia de dualidades, questionamentos, que certamente farão o público se familiarizar com sua trajetória. E ambos, conduzem a narrativa de um jeito sem igual!

No início deste ano, uma idosa de 63 anos foi resgatada de uma situação análoga à escravidão no Rio de Janeiro. Em relato, ela contou que trabalhava para família em tempo integral, sem salário, desde os seus 22 anos de idade. Não tinha em posse seus documentos, morava em quarto nos fundos da casa, sem energia elétrica! E para alguns, acontecimentos assim não existem!

E talvez esta seja a potência da história contada em '7 Prisioneiros', revelar um Brasil regido por uma classe que ao explorar a mão de obra de outra, enriquece e fortalece um ciclo de colocar novas pessoas diante de uma situação abusiva, enquanto há um subaproveitamento de quem se "destaca" diante da situação imposta!

Nisso, o texto questiona os órgãos responsáveis pela fiscalização que não se faz competente em proteger tais trabalhadores, e a situação de servidão que uma pessoa se coloca para manter sua família à salvo, e ganhando o pouco que consegue conquistar diante de horas de trabalho. Ao mesmo tempo, demonstra que há toda uma complexidade na construção, e na ascensão, de quem está à frente. Algo muitas vezes passado de geração em geração, sempre comandado pelas mesmas figuras!

Assim, os conflitos e embates de Luca e Mateus desenham a face de um Brasil onde os dominados ainda enxergam quem está no topo como um ser benevolente, mesmo que a crueldade permeie cada uma de suas ações. E de igual forma, as atitudes que resultariam em liberdade, são punidas levando a rendição e aceitação do que está ocorrendo, dando apenas o desejo de que um dia que aquilo tudo acabe. Ou surja a oportunidade de galgar um degrau maior naquela "hierarquia exploratória", onde nem isso é sinônimo de liberdade!

'7 Prisioneiros' é um relato intenso, cruel e real de um Brasil que está a nossa volta! Uma história que através de seus personagens cativantes, nos leva a discussões pertinentes e atuais, sobre as condições da sociedade, a forma de enriquecimento de determinadas classes e as condições de dominância impostas por um sistema que apenas mudou de nome com o passar dos anos, mas que ainda carrega as mazelas da escravidão que tanto se fez presente no país.

Assim, não apenas a direção, mas as atuações de Rodrigo Santoro e Christian Malheiros tornam a experiência ainda mais direta, e em alguns momentos, intragável para o espectador. Apesar deste sentimento ser essencial para a compreensão do texto e dos contextos apresentados na narrativa.

Ao final é perceptível como as nomenclaturas no Brasil são transformadas para favorecer alguns! Preconceito se torna opinião, ódio vira liberdade de expressão, exploração no ambiente de trabalho é mascarado como dedicação ou compensada por "ela é tratada como alguém da família"! E estas denominações precisam se fazer conhecidas no dia a dia. Mais do que isso, ser combatidas!

'7 Prisioneiros' está disponível na Netflix!

Will Weber
Geek Guia

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