Notícias
  10/02/2020 às 11h31

Super Dica de Cinema | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa


5
0
Super Dica de Cinema | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

O último momento em que vemos Arlequina nos cinemas, ela reencontra o seu "amado" em um resgate ousado, após os eventos do pífio Esquadrão Suicida (2016).

O que poderia ser um final romântico aos olhos dos mais ingênuos, se tratando do histórico deste relacionamento. Contudo, não é assim que as coisas funcionam!

Logo, nesta nova produção, que coloca a vilã como peça fundamental para movimentar uma narrativa que dá ainda mais poder a quem já o possui, descobrimos o que Arlequina tanto almeja para si, e certamente não é ficar à sombra de ninguém!

E neste caso, rompendo com as barreiras, principalmente aquelas que certamente foram estabelecidas por detentores da masculinidade frágil, cinco personagens femininas dos quadrinhos assumem as rédeas de uma obra que vai além da representatividade. Mostrando então que terminar um relacionamento explodindo coisas e atirando em homens abusivos é o melhor que há!

+ Siga a rádio FM Super também pelo Facebook, Instagram e YouTube.

Arlequina (Margot Robbie) acabou o seu relacionamento com Coringa. E não, ela não é e nunca foi apenas "a mulher do Coringa", agora a psiquiatra criminosa procura o seu próprio caminho em uma Gotham que praticamente quer acabar com sua vida. Logo, o seu caminho irá se cruzar com o de Cassandra Caine (Ella Jay Basco), uma jovem ladra que roubou de quem não deveria, fazendo então que Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) e Renee Montoya  (Rosie Perez) surjam para que juntas possam dar o fim no bandido que está no comando de tudo atualmente!

Cathy Yan comanda a produção repleta de personalidade, diversão, violência e um humor assertivo.

A diretora usa da "loucura" de sua protagonista para dar o tom que vai permear a trama e as sequências de ação.

Para isso, Arlequina quebra a quarta parede (E se for comparar neste caso, faça direito. Eu te ensino: use a série Fleabag) constantemente para nos aproximar dos fatos que aconteceram, que estão acontecendo e nos trazendo informações que serão importantes para tudo que está por vir (Talvez este seja um ponto que deixe o espectador confuso). Além de apresentar suas novas "companheiras"! E quando consegue se concentrar, não que isso seja costumeiro, a protagonista ainda solta diagnósticos das pessoas que cruzam o seu caminho, isso antes de lhes quebrar as pernas ou arremessar coisas (Sim, tudo isso com muito humor)! Desta forma, as lutas (coreografadas pela mesma equipe de John Wick) dão um senso real de perigo, onde os golpes e escoriações são sentidos, possuem consequências verossímeis e até fazem com que o espectador desvie o olhar por conta de sua intensidade. Logicamente, nesses momentos, Yan explora bem a interação e as habilidades de cada uma de suas personagens, gerando situações onde iremos rir "com respeito" quando os bandidos forem nocauteados. Canário Negro possui um estilo de lutas mais voltado pras ruas, Caçadora é altamente habilidosa, Renne é forte e Arlequina é o puro descontrole (A sequência de invasão à delegacia é memorável). Tal descontrole é encontrado também na fotografia que consegue mesclar o colorido dos ambientes, objetos de cena, figurinos e maquiagem, com a densidade de uma cidade que sempre foi sinônimo de decadência. Por mais que grande parte das sequências antes do clímax sejam durante o dia, isso não remove o senso de perigo. Ao mesmo tempo, a trilha sonora contribui para que a jornada de emancipação ganhe ainda mais força em tela, encaixando canções que vão costurando ao fundo uma sororidade eminente!

Fantabuloso!

Este é um adjetivo que se encaixa perfeitamente em uma história que não está aqui para "apagar" o que foi feito no primeiro filme que Arlequina aparece ou dar ênfase naquele Coringa Millenial esquisito! O foco é a presença feminina dotada de uma autonomia em cada núcleo. E por mais que esta seja uma produção com foco na personagem de Margot Robbie, cada uma de suas co-protagonistas emancipam-se de vários elementos comandados majoritariamente por homens. Seja dando fim àqueles que mataram sua família, ao patrão abusivo, aos colegas de trabalho que recebem os créditos pelo o que você faz ou encontrando refúgio com quem se torna uma inspiração mesmo que sem filtros.

Christina Hodson estabelece em seu roteiro um discurso sobre ser quem você é, onde você quer, sem precisar de que outra pessoa lhe diga isso, demonstrando a batalha da mulher contra as manifestações do patriarcado e principalmente, dos homens que possuem um certo "poder" dentro da sociedade. Alinhada ao trabalho de Cathy Yan, ao entregar uma sequência onde uma figurante é assediada de uma maneira brutal, narrativa e câmera alinham-se para demonstrar o desespero da personagem sem precisar cair na sua vulgarização ou super-exposição, há medo, raiva e dor, simplesmente ao observarmos o rosto da atriz e de quem observa tudo aquilo. E certamente não seria da mesma forma com uma direção e roteiros masculinos. Pois este instante dialoga perfeitamente com o que ouvimos em diversos lugares, porém o ponto crucial é o ponto de vista. O ponto fundamental aqui é como estas mulheres em tela refletem colegas de trabalho, escola, amigas, irmãs, mães, que ao longo de sua trajetória Fantabulosa, ainda precisam todos os dias lutar por uma emancipação, que nós homens tentamos muitas vezes apagar com piadas, comentários e o assédio. E nesta jornada, Canário, Renne, Caçadora, Cassie e Arlequina não precisam salvar o mundo de seres modificados, ameaças interplanetárias ou conjurar portais. Já existem quem o faça, de um jeito repetitivo, mas o que precisa dito, somente elas poderiam ocupar esse espaço!

Aves de Rapina e a Fantabulosa Emancipação de Arlequina é divertido, insano, cheio de humor e violência.

A produção é sim sobre Arlequina e o processo de encontrar o seu próprio lugar em meio ao caos, juntamente daquelas que se propõem a quebrar os paradigmas impostos e alguns maxilares.

Com uma direção que sabe utilizar a loucura de sua protagonista e um roteiro carregado de importância no discurso, a obra certamente irá causar um desconforto em alguns. Por cenas agressivas? Não, mas pela vontade verborrágica de maquiar o machismo usando de eufemismos.

Para alguns membros do poviléu masculino a frase "O filme da muié do Coringa" não soa como ofensa, logicamente isso nos remete a um tratado histórico-social-cultural-político do papel do homem e de sua masculinidade fragilizada, então para desconstruir esse enunciado podemos dizer que na verdade, o longa do Coringa, aquele de 2019, é apenas o "Filme do vilão do Batman"! Desta forma reduzindo a persona à sombra de outra!

"Mas não funciona dessa forma com eles!"

Exatamente, não funciona, e é justamente esta forma que Arlequina dá um jeito de quebrar!

P.S: Não há cenas pós-créditos, mas quem ficar até o final terá uma surpresa narrada!
 

Will Weber
Geek Guia

Tags
sombra

Promoções
sombra

Artista em Destaque

241
43

Amigos da Super