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  25/01/2021 às 11h27

Pinóquio


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Pinóquio

Existe uma vontade, quase um fetiche de quem produz cinema, que é o de tornar certas narrativas sombrias e com toques realistas! Porém, quando chegamos nas histórias clássicas da literatura, e principalmente nos contos de fadas, esbarramos em um ponto muito importante: Tais histórias, originalmente, são dotadas de aspectos sombrios e assustadores. Então, o trabalho de adaptação se torna mais "facilitado", nesse quesito, desde que nas mãos certas!

Por isso, Pinóquio (2019), chega aos cinemas atrelado aos contos originais do boneco de madeira mais conhecido da cultura pop. E abraçando todos os elementos bizarros, estranhos e até mesmo chocantes de sua narrativa, somos entregues a uma experiência que não é recomendada para crianças. Como dito ali em cima, os contos de fadas em sua essência não possuem músicas, príncipes bondosos e seres mágicos alegres. Ou seja, a Disney enganou você!

Gepetto é um homem pobre que certo dia decide construir um boneco de madeira para tentar mudar de vida, até mesmo viajando com ele ao redor do mundo, fazendo apresentações, tal e qual a um circo que conheceu. E ao ser presenteado com um pedaço de árvore que possui vida, o senhor constrói Pinóquio, o seu filho. Mas o pequeno ser de madeira logo apresenta ser desobediente e rebelde para várias coisas, e isso o colocará em diversos problemas, principalmente o separando de seu pai. E nessa jornada, Pinóquio precisará aprender diversas lições se realmente quer ser um menino de verdade!

Matteo Garrone dirige a produção baseada nos contos originais de Carlo Collodi, o autor de Pinóquio, que trouxe em seus escritos elementos estranhos, até mesmo perturbadores, utilizados com maestria nessa adaptação. Logo é preciso dizer que o roteiro faz bom uso do material de origem, trazendo para tela quase literalmente as passagens mais bizarras das aventuras que o boneco de madeira vivenciou nas páginas. Isso dá ao diretor a liberdade para criar sequências que se tornam praticamente assustadoras em um "conto de fadas".

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Garrone consegue extrair não apenas do seu elenco, mas de todas as nuances técnicas a sua excelência. Empregadas na maquiagem (O Raposa, O Gato, A Fada, A Lesma, O Juiz Macaco, cada um tão perfeito quanto o outro), no uso dos efeitos digitais, nas ambientações e na fotografia que exalta as paisagens da Itália, ainda que apresentada de maneira decadente. Deste modo, ao misturar traços do neorealismo italiano com todos os aspectos fantásticos, a direção entrega cenas espantosas e ao mesmo tempo executadas com personalidade.

Por isso deixe de lado o que foi visto na Disney!

O que temos então é uma produção que faz do fantástico sua principal ferramenta para apresentar as lições de sua narrativa e ao mesmo tempo gerar um certo desconforto no espectador. Do momento do enforcamento de Pinóquio, ao ser jogado na forma de burro no mar, não existem reservas para apresentar isso em tela. Igualmente no momento onde os meninos irão se transformar em animais, toda a atmosfera aterradora ganha ainda mais força, testando então a permanência dos olhares do público no momento.

Já o elenco faz jus à todos os pontos assertivos da trama. Roberto Benigni, faz de seu Gepetto, uma figura doce, inocente e muito fácil de nos levar cativos à sua condição. O que lhe rende ótimos momentos em tela com Pinóquio. E falando do boneco, interpretado por Federico Lelapi, eis o grande destaque de toda história. Mesmo coberto pela maquiagem e os efeitos visuais, Federico entrega as camadas necessárias para nos fazer ir do amor à raiva por Pinóquio, e lógico, torcer junto com ele pelo desfecho tão conhecido.

O texto presente nesta versão de Pinóquio procura entregar ensinamentos ao mesmo tempo que revela os castigos por trás de atitudes como a desobediência, a mentira, roubo e egoísmo. Ao mesmo tempo, essa construção soa como uma metáfora de crescimento, onde o protagonista só irá alcançar o que tanto deseja, ser alguém de verdade, quando entender o que realmente uma pessoa precisa passar em sua jornada! Isso envolve não apenas o aprendizado, e sim o ato de cuidar de alguém que tanto o ama!

E por mais que essas lições possam soar apenas de maneira infantilizada, engana-se quem pensa assim. Pois o tom da narrativa mostra ações e consequências de maneira constantes e bizarras, não deixando que Pinóquio fique longe de resultados catastróficos, o que eleva o clima perturbador.

Entretanto, a película acaba se delongando em pontos que poderiam ser desenvolvidos com maior agilidade, algo feito em situações que certamente deveriam ocupar maior espaço, como a criação do boneco em si, sua relação com a Fada e com Grilo, até mesmo a esperada sequência dentro do peixe gigante. Ainda assim, não altera ou diminui os acertos dessa produção capaz de usar o material original para nos fazer conhecer pontos de uma história que não é tão "colorida" assim como nos contaram outras vezes!

Pinóquio é uma adaptação sombria, realista e desconfortável, tal e qual o seu material original. A transposição para tela carrega personalidade e uma atmosfera de perigo constante, onde o protagonista irá vivenciar constantemente as consequências de suas más escolhas.

Com direção que emprega qualidade tanto nos aspectos técnicos, quanto no comando do elenco, mas fundamentalmente na narrativa, o espectador irá se ver espantando em diferentes situações, o que nos faz deixar de lado a expectativa de conto de fadas açucarado, para mergulhar o amargor da realidade colidindo com o fantástico!

Logo, o boneco de madeira mais conhecido da literatura e da cultura pop em seu cerne é uma figura inconstante, perturbada e até mesmo caótica, o que torna o seu nariz que cresce o menor de seus problemas! E novamente, essa não é uma história para crianças!

Pinóquio está em cartaz nos cinemas!

IMPORTANTE: O Geek Guia orienta o leitor que deseja ir aos cinemas de sua cidade que siga todos os protocolos de segurança necessários, além da utilização de máscaras dentro do estabelecimento. Porém, se possível, fique em casa!

Will Weber
Geek Guia

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