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  16/03/2021 às 18h03

O Recepcionista


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O Recepcionista

Existe uma curiosidade do ser humano em ficar observando os outros! Não à toa que atualmente um dos assuntos mais comentados nas redes sociais é o reality show Big Brother Brasil que se torna quase que um voyeurismo coletivo, onde o fetiche por espiar o comportamento alheio domina todas as conversas. Sejam elas virtuais ou não! Contudo, nem sempre o que é visto poderá agradar os olhos dos espectadores causando uma série de ideias, conclusões e até mesmo intervenções.

Deste modo, 'O Recepcionista', novo filme disponível na Netflix, apresenta não apenas um protagonista curioso, mas uma trama que procura trabalhar o suspense, ao mesmo tempo que coloca as condições cognitivas do personagem principal como discussão para os fatos que ocorrem, nos levando a questionar ou não suas intenções. Porém, o que aparenta ser uma ideia competente para um longa-metragem, acaba se perdendo na própria ambição narrativa.

Bart é um jovem autista que trabalha como recepcionista em um hotel. E sem que os hóspedes saibam, o rapaz as filma, justamente para observar seus comportamentos. Porém numa dessas gravações, Bart vê uma moça sendo agredida e ao tentar ajudar, acaba encontrando-a morta. Logo uma investigação começa e tudo fica ainda mais complexo quando uma jovem entra na vida do recepcionista, e isso poderá fazer com que ela tenha um destino semelhante a hóspede que Bart observava!

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Michael Cristofer dirige e escreve a produção distribuída pela Netflix. E assim como qualquer outra produção genérica, possui uma premissa interessante, mas sua execução é insuficiente! Não que o diretor não saiba o que está fazendo, pelo contrário. Cria bons planos, estabelece uma atmosfera inicial de suspense em torno do protagonista, a fotografia é bem empregada, vai entregando no primeiro ato os elementos que nos farão ficar atentos as ações de Bart e complementa com um mistério que não fazemos ideia de como pode ter se desenrolado.

Contudo, a partir da segunda metade do filme, todas as boas ideias iniciais são deixadas de lado e adentramos a situações que não contribuem para a trama ou são inseridas para tentar nos convencer de uma subjetividade que não funciona. Isso fica ainda mais visível com a chegada da personagem de Ana de Armas que passa a estabelecer uma relação com Bart, mas sem profundidade alguma, não levando para lugar algum. E quando não havia o que acrescentar, uma espécie de plot twist previsível surge, para tentar convencer o espectador da importância dela. O que poderia funcionar se a montagem das sequências não tivesse perdido completamente o senso estético que o filme carregava desde o começo.

Desta forma sobra para Tye Sheridan segurar essa parte do longa através de sua interpretação! Ele se esforça e consegue transmitir trejeitos, linguagem e comportamentos de uma pessoa dentro do espectro autista. O ator convence em seu Bart e por si só cria o enigma que nos querer saber mais da história. Não pelo roteiro, mas pelo o que Sheridan nos entrega! E como dito, Ana de Armas se faz presente, porém sem comprovar o porquê de estar ali. Além de possuir uma cena de nudez desnecessária. Já Helen Hunt infelizmente se vê perdida nos acontecimentos, deixando sua atuação presa a gritos e mais gritos!

O texto de 'O Recepcionista' possui uma premissa interessante, uma ideia diferente e um protagonista que em suas características apresenta uma curiosidade ao público. Porém nada disso é construído da maneira correta.

O fato de Bart ser um jovem autista, dentro do mercado de trabalho e vivendo uma vida que aos olhos de muitos parecia ser impossível, já se mostra um ponto interessante e até mesmo representativo no roteiro do longa. O problema é que as características principais do protagonista vão sendo colocadas de lado por conta de um mistério mal construído na narrativa. E numa tentativa errônea de nos fazer lembrar do que o rapaz já passou ou quais são suas "limitações", sequências mal escritas de diálogo com o Detetive Espada e com Andrea, querem fomentar a ideia das questões cognitivas do jovem, o que não funciona e deixa tudo soando como um grande insulto às pessoas que convivem e possuem autismo.

Ao mesmo tempo o enigma que carrega a trama principal não encontra um ponto de virada interessante. A chegada de Andrea deveria movimentar isso, mas a personagem é tão inconsistente na forma como foi escrita, que até a tentativa de reprisar um fato dentro da história faz com que a criatividade inicial seja engolida pela previsibilidade.

O resultado, apesar da boa introdução, aos poucos a narrativa perde força, sendo sustentada pelo desempenho do protagonista, mas que não consegue sozinho encerrar de maneira assertiva o longa. Pois ao tentar trabalhar com o subjetivo em seu final, o diretor entrega uma sequência coerente com seu personagem principal, só que mal encaixada e anticlimática! 

'O Recepcionista' entra para o hall dos filmes da Netflix que até possuem uma ideia interessante, mas não sabem como dar continuidade a isso. E na tentativa de fazer algo maior do que são, se perdem no próprio conceito, não dão espaço para o elenco do jeito que merece e acaba por deixar lado tudo que foi construído de bom para abraçar um mistério desconexo. Fazendo companhia para outros títulos como 'Mentiras Perigosas', 'Encontro Fatal' e 'Remédio Amargo'.

Já em seu aspecto técnico há méritos ao diretor por seus planos criativos, a primeira metade que estabelece o clima de suspense e o bom emprego da fotografia, porém tudo isso fica para traz nos segundos e terceiros atos, o que nos faz questionar se realmente era mesma pessoa dirigindo o filme inteiro.

Assim, por mais que o protagonista se esforce, nem ele consegue salvar a produção de um desfecho previsível, mal encaixado e anticlimático. E desta vez a Netflix nem tem culpa, ela só distribuiu mesmo! 

O Recepcionista está disponível na Netflix! 

Will Weber
Geek Guia

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