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  25/09/2020 às 13h09

O Diabo de Cada Dia


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O Diabo de Cada Dia

Existe uma velha frase que diz: "religião não se deve discutir"! E se pararmos para pensar, ao longo da história, a relação do homem com o divino provocou inúmeras tragédias, tão piores e avassaladoras quanto uma simples discussão sobre em quem, no que e como acreditar. Desta forma, em O Diabo de Cada Dia, novo filme original Netflix, essa relação dos seres mortais com o criador todo poderoso se torna a ferramenta para o que há de pior na natureza das ações humanas. Um verdadeiro espetáculo de maldade em nome daquele para onde se direcionam as orações!

Ao longo dos anos a família Russel passou por diversas situações em que a sua fé foi colocada à prova. Guerra, perda de entes queridos, a violência a sua volta, tudo isso sempre os fazia retornar suas orações a Deus. Porém quando o jovem Arvin precisa tomar uma atitude para vingar uma pessoa que ama, tais feitos colocam em discussão o quanto se pode realizar em nome daquilo em que se acredita. Assim, sejam boas ou más atitudes, um pastor, um policial, um jovem rapaz ou um psicopata, podem ter muito em comum aos olhos de quem os criou!

Antonio Campos comanda a produção de uma forma quase que antológica na construção de sua narrativa. Aos poucos, as nuances de cada um dos arcos vai surgindo em tela, revelando detalhes, personalidades, comportamentos e as ações que irão regar a continuidade da trama. Nisso, o diretor opta por criar um ambiente sufocante, marcado pela intensidade do calor do interior norte-americano, endossado pelas características das figuras que habitam aquele lugar. É como se todos ali vivessem debaixo de uma "opressão" natural!

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Desta forma, com uma câmera estática e que às vezes assume um ângulo mais subjetivo, trabalha-se muito as expressões de cada um dos personagens e as reações em relação ao que os cerca. Literalmente, o diretor quer demonstrar que o diabo, o mal, está nos detalhes. E estas sutilezas ganham mais ênfase quando se tornam explosões de violência em tela, com espancamentos, tiroteios e até um ato de assassinato em nome de Deus. A crueldade ganha destaque sem pudores ao demonstrar as facetas da maldade do homem movido pelo ódio ou por imaginar ter escutado a voz do divino!

Por isso, cada um presente na história tem seu momento de encontro com o próprio mal! Robert Pattinson entrega um reverendo asqueroso, sendo a própria personificação da hipocrisia cristã, em uma atuação brilhante. Bill Skarsgård funciona como um apóstolo que ensina ao seu discípulo o caminho para que no tempo certo possa fazer o que se deve. Tom Holland faz seu papel de maneira assertiva numa espécie de "justiceiro" de reação em cadeia, mas nada surpreendente ou que renda mais adjetivos! Sabastian Stan e Jason Clarke estão presentes, e só! Já Riley Keough, Mia Wasikowska e Eliza Scanlen são as que se deparam com o mal, cada um em sua instância, de diferentes jeitos mórbidos e destrutivos, transmitindo dor, decepção, e por incrível que pareça, fé! E isso o texto tem mais a nos dizer!

Entretanto, a produção com mais de 120 minutos de duração se perde ao estabelecer diversos núcleos, o que ocupa um espaço em tela desnecessário, tornando algumas sequências incoerentes com o momento ou que não possuem a carga dramática necessária para o instante em questão. Ao mesmo tempo que a narrativa quer realizar uma conexão entre todos, o trajeto até isso exige um pouco de paciência do espectador!

A fé é um sentimento a ser questionado, dentro e fora do ambiente mais religioso possível. As ações que ela provoca tanto podem ser as mais amáveis possíveis quanto as mais deturpadas em um grau alto de maldade. É nessa ótica que O Diabo de Cada Dia trata cada uma de suas histórias, as interligando através de muito derramamento de sangue. Tudo aqui é regado pela crença, por acreditar, usar e agir em nome de um ser divino. Seja na hora da perda de alguém, ou na falta de respostas de Deus, o limite de tudo isso abraça a violência de tal maneira a tornar as atitudes viáveis e aceitáveis por quem as pratica, pois está realizando algo por uma figura sagrada ou porque a entidade máxima assim pediu!

De igual modo, outros fazem uso do ser Todo Poderoso como uma ferramenta para sua satisfação, para conquista de seus desejos ou em sua simplicidade e ingenuidade, estar mais perto de quem já se foi. Logo, essas ações colidem tornando o discurso presente uma representação do que encontramos atualmente: Pessoas que em nome daquilo em que acreditam tentam se colocar acima dos demais, ao mesmo tempo que incitam a violência, o preconceito e a maldade desenfreada, estando tão enganadas quanto aquelas que as seguem de maneira cega. E talvez para muitos espectadores os momentos de barbárie do filme sejam exagerados ou fora do seu âmbito de convivência, mas é possível encontrar comportamentos semelhantes naquela pequena igreja de esquina no seu bairro, no padre da paróquia da sua rua e até mesmo naquele vizinho considerado um cidadão de bem exemplar.

Contudo, para vencer o diabo de cada dia o homem deve ser livre de várias questões mundanas e de tudo o que o pode afastar do encontro máximo com o divino. E a narrativa realiza tal efeito, tornando a jornada de Arvin uma espécie de ciclo onde encontramos arrependimento, confissão, perdão e a restauração daquilo que é! Ainda assim, para chegar até este ponto, o grande questionamento que fica é o mesmo que podemos colocar quando um escândalo no meio religioso ocorre: Será que foi mesmo o diabo que o fez fazer isso?

O Diabo de Cada Dia é uma demonstração de como fé e violência conseguem caminhar tranquilamente juntas quando estão pautadas pela religiosidade desenfreada. Ao mesmo tempo, aponta para o quanto o ser humano procura esconder e satisfazer suas ações mais repugnantes usando da ingenuidade alheia.

Com uma direção competente, a produção apenas perde força ao prolongar demais atos desnecessários, personagens que pouco ajudam no andamento da trama e ao vender algumas superestimadas atuações. Assim, se Deus e o diabo se encontram nas sutilezas diárias, cabe ao agente de fé compreender ou não a mensagem que está sendo dita e por quem é transmitida.

Pois, parafraseando uma outra obra cinematográfica, sabemos que fé demais não cheira bem e às vezes a crueldade humana se mascara de discurso em púlpito, louvor na manhã de domingo e no livro sagrado debaixo do braço!

O Diabo de Cada Dia está disponível na Netflix!

Will Weber
Geek Guia

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