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  12/05/2021 às 8h21

Monstro


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Monstro

Produções com a temática de tribunal e grande julgamentos procuram se atentar as figuras que fazem parte de todo aquele processo. Do juiz ao júri, do acusado aos advogados, incluindo o sistema judicial, essas histórias seguem uma linha quase que pragmática, cercada de normas e regras cinematográficas para que aquela narrativa ganhe forma até o momento do veredito.

Em 'Monstro', filme que chegou ao catálogo da Netflix, encontramos a temática de um processo judicial, mas desta vez a construção da obra tenta nos mostrar situações mais humanas, sensíveis e sentimentais ao redor de toda a situação. Comprovando que é impossível remover o que é humano, mesmo quando uma decisão vital precisa ser tomada! Logo, a forma como se olha para alguém é colocado em xeque, em uma trama onde alguns discursos encontramos todos os dias em nossa sociedade!

Steve Harmon, é um estudante de uma escola de prestígio de Nova Iorque. Morador do Harlem, Steve quer muito colocar o que vê no dia a dia nos filmes que está preparando para o clube de cinema do colégio, porém certo dia o jovem é acusado de participação em um homicídio. Assim começa a batalha judicial para provar a sua inocência, enquanto acompanhamos os dias do adolescente dentro e fora da prisão!

Anthony Mandler é quem comanda a produção que estreou em 2018 no Festival de Cinema de Sundance e chega somente agora através da Netflix! O diretor, oriundo da direção de videoclipes, entrega uma estética muito particular e criativa para narrar essa história que não será tão simples de ganhar forma, se tratando de um assunto tão em alta hoje em dia!

Mas Mandler sabe o que realizar com a câmera! Ele cria uma dualidade com as cores dos ambientes por onde o protagonista percorre. Desde a sua escola, a sua casa, até mesmo os momentos na prisão, encontramos tons que representam os sentimentos de Steve, nos fazendo entender as idas e vindas da história. Quando acompanhamos o julgamento, o ambiente é frio, acinzentado. Já antes desses acontecimentos, as cores são quentes, vibrantes e a sempre um plano que valorize a luz do ambiente!

Logo, o diretor vai fazendo cortes, e inserções, para que a trama se torne dinâmica e não apenas presa às burocracias de um julgamento. Por isso, a contextualização da vida do personagem principal se faz importante, trazendo então o talento do diretor ao dirigir videoclipes, tornando tais momentos repletos de simbologia e emoções!

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Grande parte do acerto dessa mecânica está na atuação de Kelvin Harrison! Sua narração, a forma como lança olhares e a voz que vai da confiança ao embargado, transformam sua presença em cena em algo que queremos acompanhar até o fim. Eles nos convence de sua história, se suas ações, daquilo que passou até o momento, conquistando a torcida do espectador e empatia em todos os momentos! E apesar disso tudo, há certos pontos que poderiam ter sido melhores!

Quando o protagonista coloca em dúvida a forma como as pessoas o observam, entendemos que essa pergunta faz completo sentido pela forma como ele é tratado ao longo da história.

O roteiro se encarrega de mostrar como o sistema judicial e a polícia partem do pressuposto que todo jovem negro é culpado! E o ato de "provar o contrário" nem sempre é válido, já que o advogado de acusação deixa claro que é só "olhar" para Steve que podemos entender o que eles fez. Desta forma, com o dedo riste, o chamam de "monstro" durante o julgamento, colocando então o protagonista num processo de lembrar o que levou até aquele exato momento.

Como dito, a narrativa encontra sua intensidade ao mostrar como Steve sente e lida com essa situação. Os seus sentimentos vão se transformando, ao passo que ele vai aprendendo a se adaptar ao ambiente da prisão! Gerando até mesmo uma aceitação prévia do fim que pode vir a lhe ser decretado! Nesse contexto, somos levados uma verdadeira jornada pela juventude, pelas descobertas e sonhos de fazer algo além do que se espera, e a forma como tudo isso pode ser interrompido por conta do preconceito estabelecido de forma cultural!

Ao mesmo tempo, esse jogo de cena pode confundir o espectador em certos momentos. Já que as idas e vindas no roteiro, tendem a acontecer de uma maneira constante para costurar elementos para que a trama caminhe. Contudo, nessa escolha de conduzir o filme, alguns personagens são esquecidos pelo caminho, ou tem sua participação reduzidas de maneira pontual, removendo parte da carga dramática que certas sequências poderiam produzir!

Apesar destes aspectos, a produção é uma explanação do quanto o racismo estrutural, fomentado por uma sociedade, se torna o primeiro ponto a ser utilizado como ferramenta de acusação diante de uma pessoa negra!

'Monstro' é um recorte cheio de sentimento do quanto a sociedade ainda está alicerçada no racismo estrutural transformado em discurso de acusação de maneira agressiva e condenatória! Ao mesmo tempo, a produção usa do aspecto mais subjetivo para revelar uma jornada através da juventude sonhadora, criativa, de um jovem que simplesmente passava pelo caminho errado, no momento errado do dia!

Com uma direção assertiva, mas que acaba se perdendo um pouco no estilo de contar a história, deixando bons personagens de lado, encontramos no protagonista a emoção que irá nos fazer o exercício de empatia necessário para questionar certos sistemas que nos cercam e falas que ainda são proferidas!

Ao final, o gosto é amargo, pois nosso olhar para com jovens igual a Steve muda constantemente, se faz presente em ações, das mais amplas às mínimas do dia. Revelando que diversas vezes somos iguais ao advogado de acusação, apontamos, ofendemos e não procuramos saber a história de quem está na nossa frente, pois é mais fácil chegar ao veredito que transforma aquele ser humano em monstro, do que abandonar os conceitos culturalmente preconceituosos!

Monstro está disponível na Netflix

Will Weber
Geek Guia

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