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  07/12/2020 às 10h28

M8: Quando a Morte Socorre a Vida


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M8: Quando a Morte Socorre a Vida

Em um determinado momento do longa, Maurício é questionado se sempre quis fazer medicina, pois sua colega vinha de uma família tradicional de médicos. Ele sorri, de maneira constrangida, e ao mesmo tempo enraivecida, pois aquela pergunta que logo se torna um discurso para diminuir o fato de ter conseguido entrar numa faculdade, dentro de um curso tão elitizado, vai ganhando uma amplitude preconceituosa absurda!

Se neste momento, M8: Quando a Morte Socorre a Vida, não te faz retorcer na cadeira com a tamanho desconforto causado pelas palavras ditas no roteiro, certamente você como espectador precise rever conceitos, pensamentos e ideias que possui. E talvez, este seja o filme perfeito para isso também, pois o retrato da nossa sociedade é estampado de maneira direta, sem exageros, como ela é de verdade, não dando espaço para nenhum tipo de negacionismo!

Maurício é um jovem negro que começou a estudar em uma renomada faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em sua primeira aula da disciplina de anatomia, se vê frente ao cadáver M8 que será estudado por ele e os colegas naquele semestre. Porém, há algo naquele corpo, também de um jovem negro que fará Maurício questionar tudo o que está a sua volta, indo à procura da identidade daquela pessoa, além de buscar resolver seus próprios conflitos!

Jeferson De é quem comanda a produção trazendo um drama que utiliza de elementos do sobrenatural para ir costurando uma narrativa repleta de significados, vivencias e da realidade de muitos em nosso país. A direção escolhe uma câmera que transita pelos ambientes, por entre os atores, e quando necessário, foca nas expressões, nos olhares, tornando a aproximação com quem assiste inevitável! Da mesma forma, os diálogos são diretos, carregados de emoção, de sentimentos que se tornam palpáveis e confrontadores.

E tais cenas nos fazem pensar em tudo o que nos cerca e quem está a nossa volta! Maurício é perguntado se trabalha na faculdade, mesmo a pessoa o vendo em sala durante a aula. Maurício sofre violência policial mesmo estando junto dos amigos brancos. Maurício ao sentar-se ao lado de uma senhora no ônibus, percebe o momento em que ela segura com mais força sua bolsa. Nesse momento, existem dois tipos de espectadores na plateia, os que são vítimas desses atos de preconceito, e os que, em algum momento, já os realizam (direta ou indiretamente).

Estética e tecnicamente a produção salta aos olhos e os elementos cênicos ajudam na contação dos fatos que estamos assistindo. Os corredores da faculdade se tornam claustrofóbicos à medida que o protagonista busca respostas sobre os corpos estudados, já os locais da classe alta da cidade são grandiosos, expansivos, tornando Maurício às vezes uma pessoa diminuta diante de tudo aquilo! E cada um desses pontos está conectado há algo, há um tipo de situação. Mesclando isso aos recursos da edição que nos permear o que está relacionado ao espiritual e ao natural, de maneira simples, fluida e dinâmica.

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Logo, grande parte dessa construção se dá na interpretação de Juan Paiva! O intérprete de Maurício é carismático, ao mesmo tempo que demonstra força e fragilidade, num misto de expressões e ações que leva cativo a percepção de quem assiste do começo ao final do filme. De igual modo, Mariana Nunes, com sua personagem Cida, vai da doçura à admoestação dando para suas sequências um toque de carinho, alinhado alinhando às lembranças das lutas que a narrativa conta. E assim, o texto da obra é um grande manifesto sobre o Brasil que alguns ainda insistem em dizer que não existe!

Maurício durante a aula faz uma incisão no cadáver e um dos colegas, branco, rico, diz que ele leva "jeito para aquilo" e que já tem "chance de ser açougueiro". Maurício logo após uma festa é confrontado por um policial sobre andar à noite em bairro de gente rica, ou como ele mesmo diz, o jovem estava "dando mole". Maurício é reduzido em suas conquistas através da fala da mãe de uma de suas colegas que ainda diz a filha que ela só está saindo com o rapaz por "curiosidade", elevando o tom de sexualização do momento.

Todas essas situações da narrativa certamente irão causar algum tipo de reação na plateia, ao menos é o que esperamos de quem ao longo da vida desenvolveu sentimentos como empatia e respeito, os levando cada vez mais em primeiro lugar quando tais fatos ocorrem. Contudo, nesse momento, eu escrevo esta crítica pensando muito no quanto certas reproduções de discursos semelhantes já passaram pela minha vida, e digo isso não sendo a vítima, mas o emissor, ou parte de um sistema que ainda mantém o racismo institucionalizado em diferentes instâncias.

Por isso, a narrativa nos faz pensar em inúmeras coisas como: Quantos negros haviam na minha turma da faculdade? Quantos negros trabalham comigo hoje? Quantos negros vejo nos lugares que eu frequento? Quantas produções de diretores e diretoras negras eu vi esse ano? Quantas manchetes eu li onde o nome do jovem, ou da jovem, não era dito e sim substituído pela palavra bandido ou traficante? E quantas vezes eu fui atendido no hospital por médico ou médico negros?

'M8' gera esse tipo de questões, questões que devem ser discutidas todos os dias, levantadas e colocadas em debate em todos os lugares. Na jornada de Maurício não existe apenas o preconceito presente em sua classe de graduação, e ele não está limitado a isso. Há o seu convívio familiar, as relações com os vizinhos, a sua religião que o ajuda constantemente a entender o que ocorre e até mesmo, uma paixão! Entretanto tais pontos não podem apagar o primeiro e tão pouco ser ignorado!

M8: Quando a Morte Socorre a Vida é um manifesto em forma de produção cinematográfica de um Brasil que se faz presente! De discursos que até hoje se repetem, de ações que são consideradas "normais", de atitudes que surgem para apagar da história as minorias! Ao mesmo tempo, a narrativa cria uma atmosfera dramática, com elementos sobrenaturais, para contar uma jornada sobre descoberta, certeza e permanência em um local que muitos dizem não ser o do protagonista!

Com uma direção que mescla diferentes tons, usando do cotidiano para endossar ainda mais o texto presente e com uma qualidade estética exímia, temos uma produção que serve de instrumento para combater o preconceito e revelar que nos pequenos detalhes do cotidiano, aquilo que pensamos ser algo corriqueiro para uns, é mais uma vez a fomentação do racismo inerente na sociedade!

"A cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil..." essa frase está no filme e com ela encerro esta crítica, pois aqui existe o suficiente para pensarmos sobre tudo!

M8: Quando a Morte Socorre a Vida está em cartaz nos cinemas! 

Will Weber
Geek Guia

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