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  28/12/2020 às 11h25

A Voz Suprema do Blues


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A Voz Suprema do Blues

A música possui diversas histórias que ainda não conhecemos. E não estamos falando apenas de como as canções foram compostas, mas sobre artistas, cantores, cantoras, músicos que ainda não foram reconhecidos como tal ou que tiveram seus nomes esquecidos, até mesmo apagados, ao longo do tempo. Por isso, o cinema é responsável muitas vezes em resgatar essas narrativas e trazê-las ao lugar devido do reconhecimento.

Deste modo, A Voz Suprema do Blues, não apenas apresenta dois grandes atores em performances intensas, repletas de emoção e força, porém nos revela detalhes do quanto numa manifestação artística o preconceito, o racismo e a forma excludente presente em diferentes âmbitos da sociedade, sempre se fez presente na história!

Ma Rainey é considerada da "Mãe do Blues" e em uma Chicago dos anos de 1927, uma mulher negra fazendo sucesso com a música pode mexer com diversas situações. Nesse clima, uma gravação está prestes a acontecer, mas Ma terá que lidar com o controle dos produtores musicais brancos, além de um dos membros de sua banda Levee, um rapaz ambicioso que tentará de tudo para também ocupar o seu espaço no Blues. E assim, a tensão, o som e as questões da vida são trazidas para o espectador.

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George C. Wolfe é quem comanda a produção baseada em uma peça teatral de 1984 que conta com produção de Denzel Washington! Para nos entregar uma história que vai além de uma possível cinebiografia, o diretor escolhe um momento importante da carreira de Ma, uma gravação que para muitos poderia ser apenas mais uma situação a ser apressadamente apresentada em qualquer outra produção, mas aqui é o espaço fundamental para que tudo ocorra. O diretor então se apoia no clima quente da Chicago da época para estabelecer uma tensão que não está apenas relacionada ao calor, pois permeia cada um de seus personagens.

Para isso, os diálogos são incisivos, diretos, repletos de vivencias e de muita emoção o todo tempo. Isso faz com que dois aspectos importantes sejam criados para essa história: A chegada de Ma Rainey ao estúdio de gravação e a presunção de Levee em relação aos demais membros da banda. Nisso Wolfe captura com sua câmera as expressões, os trejeitos e deixa livre para que as falas sejam entregues de uma maneira natural e impactante. E por mais dialogado que possa parecer para muitos, tais sequências prendem o espectador naquela atmosfera de tensão já mencionada, misturada a construção de uma história tão real quanto atual!
Tais pontos ganham ainda mais força por conta da presença de uma dupla de protagonistas que sabem como nos capturar desde o primeiro momento em que os vemos.

Chadwick Boseman, infelizmente falecido este ano, é uma presença cativante, um rapaz com sonhos e ambição que vê em seu talento musical a chance de mudar de vida e principalmente mudar a difícil trajetória que possui. Sendo que ao contar sobre sua infância com sua mãe e uma situação de extrema violência vivida, não há como segurar as lágrimas. Já Viola Davis é uma catarse de talento. Sua interpretação como Ma Rainey eleva ainda mais o que a narrativa procura transmitir, passando por todos os aspectos de sua personalidade, mantendo a postura de Diva e dando a atriz uma aura austera que poucos já conseguiram. Ela é a Mãe do Blues!

Em um momento Ma fala que as pessoas brancas não entendem de Blues, não entendem que através daquela música a vida é capaz de falar sobre diferentes situações que acontecem. E isso irá se confirmar nos minutos finais do longa, em uma cena sem a mesma emoção do que vimos anteriormente, proposital para nos causar um paralelo entre quem é considerado adequado para certo tipo de manifestação artística e quem não é de agrado do público.

Nesse pensamento, o texto de 'A Voz Suprema do Blues' carrega pontos que ainda ecoam pela sociedade e precisam ser discutidos constantemente. As manifestações racistas e preconceituosas surgem e vão desde as conversas dos produtores musicais à um acidente de trânsito. E em meio a tudo isso, o embate entre Ma e Levee acontece.

Não um confronto direto na maioria das vezes, mas através das crenças, da forma de trabalhar e como lidam com a música em sua vida. Se para Levee aquela é a chance de mostrar seu valor, seu talento, mesmo que isso cause certo desconforto durante a gravação, para Ma aquele é o momento onde tem tudo sob controle. Onde ela é a vida suprema, onde sua voz é que mais importa e é o instrumento que as pessoas precisam! Ademais, a narrativa ainda abre espaço para falar sobre fé, sobre o quanto as pessoas não compreendem o que a música é capaz de fazer, sobre o quanto os sonhos precisam de muito esforço para se tornarem reais. E mesmo assim, num instante, tudo isso pode se perder por conta de um sapato!

Logo, os conflitos que se tornam questionamentos que encontram respostas através do próprio Blues, pois quando todos estão tocando e a Mãe do estilo musical canta, nada mais possui relevância!
A Voz Suprema do Blues emociona, captura o espectador e entrega duas, se não as maiores, atuações de 2020, ao retratar uma parte importante do Blues e da música negra. E entender o que é transmitido pelo longa é perceber o quanto narrativas como esta são essenciais para que não haja o apagamento de determinadas figuras na história!

Com uma direção competente e que dá espaço para Viola Davis e Chadwick Boseman entreguem todo seu talento, em atuações de extremo brilhantismo, eis uma produção que deverá percorrer o caminho das grandes premiações no próximo ano e até mesmo, consagrando um dos maiores atores que já tivemos e que na maior de todas as tristezas, assim como em certos Blues, partiu!

Como dito no início desse texto, a música possui histórias que ainda não conhecemos. Histórias que vão além da simples composição ou das brigas entre membros das bandas. E quando essas narrativas ocupam o espaço devido, somos presenteados com uma obra relevante, representativa e emocionante. Tal qual o ritmo que Ma Rainey é a mãe!

A Voz Suprema do Blues está disponível na Netflix!

Will Weber
Geek Guia

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